sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Na falta de obra própria, uma obra de um gigante

A PROCURA DA POESIA


Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

have you?

Have you ever wished what you couldn’t have?

Have you ever dreamt what you couldn’t feel?

Às vezes sinto que pereço. Que não sou capaz de lidar com dificuldades simples da vida. Até mesmo uma tampa de vidro de azeitona me parece um desafio, por vezes inatingível. Talvez um pouco de utilidade me fizesse bem

Talvez um pouco de realização me animasse.


Apenas talvez, afinal, como posso ter certeza?


A certeza é que penso, logo existo. (Ou penso que penso, logo existo, não vou entrar no mérito filosófico.) Apenas eu penso, desejo, imagino. Logo...

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

So tired

Oh God, I just want to make the right decisions,

In the right moment.

I don’t want to hurt anyone!


But I can do it in right way.


I just want to lie down


Maybe forever.


And this is all that I can do to myself now:

Only one tear.

And nothing else .

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Da autoria insignificante

E quem foi que disse que há sempre outra opção?

Quem disse que há sempre uma escolha a ser feita?

Quem disse que caminhos continuam?

Quem disse que o tempo não pára?

Quem disse que o mundo não é justo?

Quem disse que as regras são fixas?

Quem disse que planos são necessários?

Quem disse que metas devem ser cumpridas?

E quem disse que não?

E no fim das contas, de que importa quem disse, se as palavras foram lançadas? Qual a diferença entre Albert Einstein, Carlos Drummond de Andrade ou José da Silva? Palavras são palavras, não tem força maior ou menor pelo seu autor, a diferença está apenas na repercussão.

E se eu disse tudo isso? Qual a diferença? Impreterivelmente você escolherá quais guardar e quais ignorar. E dêem graças ao maravilhoso sistema nervoso central humano e sua dita capacidade de raciocínio!

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Desenho da Jeni pra mim



Porque às vezes tudo o que eu queria é ir direto ao fim ou de volta ao começo.

Porque às vezes não saber o que fazer ou como fazer é degradante.

Porque às vezes tudo o que eu queria é estar totalmente só ou totalmente acompanhada.

Porque tudo tem limite, até mesmo as guerras findam por saturar os combatentes.

Porque às vezes as opções que se tem não são viáveis, não suprem as necessidades.

Porque às vezes gostaria de ter conhecimento, até da gramática.

Porque às vezes, tudo o que eu queria é escrever. De novo. De verdade.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

E no fim, sempre as mesmas novidades antigas.
Crepúsculos são como o amanhecer.
Planos minuciosos dão errado, então você os adapta
Mas os novos também vão fracassar e ser adaptados.
Até que quando perceber: "qual era mesmo o foco?"

E no fim das contas, a primeira vez é mesmo sempre a última chance.
Mas são tantas as primeiras vezes, que por momentos acreditamos ser outra chance.

E depois de um livro, vem sempre outro. Depois de uma música vem outra.
Porque quando morreres, alguém nascerá.
E assim o mundo indelével perpetua-se, renova-se.
Com as mesmas novidades antigas.

E no fim, a roda da vida é mesmo uma roda.
No fim, a Terra não é redonda, o tempo que é cíclico.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Intitulável

De certa forma, a chuva que cai para mim é necessária. Precisava da maior pressão atmosférica causada pela chuva, precisava de um ar mais respirável, precisava sentir apoio de algum lugar, mesmo que do clima.
Às vezes, nas longas ou curtas trajetórias de vida, acumulamos sucessões de decepções e contentamentos. Os contentamentos nos dão forças para prosseguir, nos dão fé e até nos fazem sorrir e sentir um pouquinho de prazer. As decepções nos ensinam tanto, tanto que sugam nossas energias.
É triste perceber que, por mais que nos empenhemos e façamos tudo o que está ao nosso alcance, algumas coisas simplesmente não mudam. A menos não antes que seja tarde demais. E que essas "coisas" inicialmente insignificantes se acumulam, se amontoam, passam a incomodar. Algumas delas chegam ao ponto de tornar situações inustentáveis.
É ainda mais triste notar que, por mais que a situação esteja insustentável, você terá de se subordinar. Terá de abaixar a cabeça, ignorar seus ideiais e simplesmente recolher-se à sua humilde insignificância. Tudo torna-se pior quando chega-se a esse ponto. O respeito acaba, as pessoas perdem a importância, você perde seu próprio valor.
O que fazer quando não há nada que possa ser feito? Seria a única ação possível sentar-se numa poltrona com a boca aberta num forçado sorrisso, cheio de dentes, enquanto espera a morte chegar? Será Raul?

Agora, mais do que nunca: Show me the shadows where true don't meaning lies.