segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Do texto

Já faz muito tempo, venho me lembrando eventualmente de um texto que vi ainda em meu ensino fundamental, em um de meus livros de português. Não me lembrava exatamente o nome, tão pouco me lembrava com perfeição do texto, só me lembrava que me chamou muita atenção pelo seguinte fato: o texto inteiro é constituído por substântivos. Sem verbos, adjetivos... E ainda assim descreve a rotina de um determinado cidadão, fumante, por sinal, com uma riqueza de detalhes que uma crônica rechada possívelmente não seria capaz de descrever.
Pesquisei, pesquisei, e por fim encontrei. (Salve google!)

Circuito fechado
Chinelos, vaso, descarga. Pia, sabonete. Água. Escova, creme dental, água, espuma,
creme de barbear, pincel, gilete, água, cortina, sabonete, água fria, água quente, toalha.Creme para cabelo, pente. Cueca, camisa, abotoaduras, calça, meias, sapatos, gravata, paletó. Carteira, níqueis, documentos, caneta, chaves, lenço, relógio, maço de cigarros, caixa de fósforos. Jornal. Mesa, cadeiras, xícaras e pires, prato, bule, talheres, guardanapos. Quadros. Pasta, carro. Cigarro, fósforo. Mesa e poltrona, cadeira, cinzeiro, papéis, telefone, agenda, copo com lápis, canetas, blocos de notas, espátula, caixas de entrada, de saída, vaso com plantas, quadros, papéis, cigarro, fósforo. Bandeja, xícara pequena. Cigarro e fósforo. Papéis, telefone, relatórios, cartas, notas, vales, cheques, memorandos, bilhetes, telefone, papéis. Relógio. Mesa, cavalete, cinzeiros, cadeiras, esboços de anúncios, fotos, cigarro, fósforo, bloco de papel, caneta, projeto de filmes, xícaras, cartaz, lápis, cigarro, fósforo, quadro negro, giz, papel. Mictório, pia, água. Táxi. Mesa, toalha, cadeiras, copos, pratos, talheres, garrafa, guardanapos, xícara. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Escova de dente, pasta, água. Mesa, poltrona, papéis, telefone, revista, copo de papel, cigarro, fósforo, telefone interno, externo, papéis, prova de anúncio, caneta e papel, relógio, papel, pasta, cigarro, fósforo, papel e caneta, telefone, caneta e papel, pasta, cigarro, fósforo, papel e caneta, telefone, caneta e papel, telefone, papéis, folheto, xícara, jornal, cigarro, fósforo, papel e caneta. Carro. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Paletó, gravata. Poltrona, copo, revista. Quadros. Mesa, cadeiras, copos, pratos, talheres, guardanapos. Xícara, cigarro e fósforo. Poltrona, livro. Cigarro e fósforo. Televisor, poltrona. Cigarro e fósforo. Abotoaduras, camisa, sapatos, meias, calça, cueca, pijama, espuma, água. Chinelos. Coberta, cama, travesseiro.

RAMOS, Ricardo, In: NETO, Antônio Gil. A produção de textos na escola. São Paulo: Loyola, 1993, p.82.

Encontrei, no mesmo site, outro texto também interessantíssimo. E também mais cômico:

Vidinha Redonda

Kátia da Costa Aguiar

Esperma, óvulo, embrião, parto. Bebê, choro, sobressalto, cocô, xixi, fralda, leite, colo, sono. Doença, vômito, pavor, pediatra, remédio, preço. Murmúrio, passos, fala. Escola, lancheira, material, professora. Curiosidade, descoberta. Crescimento, desenvolvimento, pêlos pubianos, seios, curvas, menstruação, modess, cólica, atroveran, adolescência. Primeiro beijo, paixão, shopping center. Batom, esmalte, rinsagem, depilação. namorado, pressão, intimidade, culpa. Festa, pai, ciúme, relógio, motel, desculpa, dissimulação. Faculdade, trabalho, consciência, cansaço, sossego, idade. Noivado, loja, fogão, geladeira, cama, mesa, banho, aliança, chá-de-panela. Cartório, igreja, núpcias. Sexo, trabalho, sexo, trabalho, sexo, esperma, óvulo, licença, parto.


Ambos encontram-se disponíveis em: http://www.pucrs.br/gpt/substantivos.php Último acesso: 27/10/2008.

Então parei por alguns instantes para analisar, o que é um texto?
Até mesmo o barulho de meu ventilador agora é um texto, aliás, a simples imagem dele, com suas hélices em moovimento rotacional constante é um texto. Mensagem? Calor pra um leitor, a necessidade humana da adaptação frente às condições adversas ambientais para promoção do auto-conforto para outro leitor. Quem é que vai saber? Certamente não o autor. Não. O autor, quando tem sorte, é o último a entender seu texto. A maioria jamais entende verdadeiramente o que quis dizer.

Ainda em minha pesquisa, encontrei algo que fortalece a minha idéia:

Você sabe qual o conceito?

Alfredina Nery
Especial para a Página 3 Pedagogia e Comunicação
Você provavelmente está acostumado a ver a palavra texto. Mas sabe qual o seu conceito?
[...]
Texto é, então, uma seqüência verbal (palavras), oral ou escrita, que forma um todo que tem sentido para um determinado grupo de pessoas em uma determinada situação.

O texto pode ter uma extensão variável: uma palavra, uma frase ou um conjunto maior de enunciados, mas ele obrigatoriamente necessita de um contexto significativo para existir.

No site: http://educacao.uol.com.br/portugues/ult1639u10.jhtm

E para finalizar o racicínio, lembrei-me de um comentário de meu professor de português do ensino médio: Quem dá o sentido ao texto é o leitor.

Ou seja, o texto está aí. A grande questão é: quanto pudemos entender?

Um comentário:

Renato Snowareski disse...

Um texto? não somente... Talvez uma poesia retratando aquilo que nos é cotidiano, ou totalmente desconhecido... Talvez a sequencia mais desconexa possa simplesmente ser uma tentativa do universo ( ou do homem) de explicar a consciencia do proprio texto.
E então não é o texto que visa explicar o mundo, mas sim o mundo procura brechas para explicar o o próprio texto,
que nada mais é que uma interpretação de algo cujo significado preencha nosso vazio mental com alguma verdade (ou inverdade), que, no mínimo, nos satisfaça.